quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Rita.

Postado por Vanessa às 22:19
Ela já estava com os cabelos brancos, eram fios curtos, densos e lisos. Meu pai sempre me levava para visitá-la, cheia de simplicidade e amor nos recebia de braços abertos, oferecia café feito no fogão à lenha, e jamais, jamais esquecerei do único almoço que ela fez para mim. Era uma espécie de arroz com alguma verdura e só lembro disso.
Sempre reclamava do que faltava, mas dizia-se feliz de como a nossa vida tomava rumo, lembrava sempre da primeira vez que meu pai pisara lá e de como era magro. Contava sempre que a cidade era muito pequena, vivia de roça, buscava lenha até um ano atrás, cuidou de dois filhos já senhores que nunca se casaram, era viúva desde que a conheci.
Usava vestidos e saiotes de flores pequenas de um tecido bem leve que eu nunca distingui, lenço na cabeça e chinelos de algodão. Eu pensava que ela iria viver para sempre, nunca a vi do jeito que estava quando disse adeus. Muito ativa, ela era, sempre.
Meus pais fizeram questão de levá-la até o projeto tão sonhado da minha mãe assim que ficou pronto, isso foi em junho desse ano. Quando a vi senti uma dor no peito que parecia que eu sabia que aquela seria a última vez que a veria. Ela andava com o tronco curvado, passos curtos, e aparentemente reclamava como sempre, e na intuição - por assim dizer - fiz um vídeo curto dela, para gravar a voz e a pele morena para sempre.
Estranho era que não apresentava nenhum tipo de doença aparente, a única história que chegou a mim foi a que tinha uma costela quebrada a uns 7 anos. Ela começou a inchar, a invalidez chegou rápida e as sessões de fisioterapia apareceram, mas nunca foram sequer iniciadas corretamente e por uma situação do acaso - assim prefiro acreditar e neblinizar - não havia como descer e subir a rua debaixo da sua casa de paredes lilás, não havia ambulância.
Uma semana antes de partir, ela foi internada no hospital da cidade vizinha, e de lá não voltou. Sua situação era de partir o coração, não havia mais a possibilidade de medicação intra-venosa pelos braços, passando para o pescoço; isso quebrou a esperança de toda a cidade aos poucos.
Por devoção foi batizada como Rita de Cássia, nasceu no dia 22 de maio, dia da santa, viveu toda sua vida na cidade cuja santa era padroeira. Partiu num dia 22.
Deixou saudades em toda a pequena cidade, nunca tinha visto minha avó chorar... até esse dia.
 

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